Há 7 anos estou no Exército, cumprindo ordens, ordens como fazer alongamento às 4h40 da manhã, limpar o chão do dormitório, respeitar os meus superiores e meus semelhantes, ficar plantado no Sol fazendo guarda ao lado dos companheiros, enquanto ambos ficavam na sombra...
Eu era pobre. Sempre fui pobre. Não aos meus olhos, aos olhos deles. Dos superiores. Dos semelhantes. Daqueles que chegaram lá com uma simples propina de papai e de mamãe, enquanto eu fiz provas, fui reprovado, estudei, fui reprovado de novo, e enfim consegui entrar.
Não sei bem ao certo o que seria o quartel. Parece mais uma cova, onde te jogam aos leões. Daniel seria devorado por leões de verdade, mas Deus ouviu suas preces e o livrou desta armadilha. Eu estou sendo devorado por leões mestiços: são metade monstros, metade gente. Mas eu acredito que Deus está comigo, assim como esteve com Daniel.
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Meu pai sempre teve muito orgulho de mim. Eu tinha pena dele. Ele dizia que de todas as ovelhas, eu era a que produzia a lã mais branca e macia, pronta para esquentar e embelezar um corpo com frio, ou somente um corpo com luxo.
Minha mãe sempre batalhou ao lado do meu pai. Juntos, tiveram 5 filhos: eu e mais quatro.
Zack e Finn são os gêmeos caçulas, de 6 anos.
Phillip é o irmão do meio, com 17 anos. Ele ajuda meu pai na loja de materiais de construção da família.
Charlie é o mais velho antes de mim. Está com 27 agora.
Ele também serve ao Exército.
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Papai quer que Phillip aliste-se como nós, mas ele perderia muitas coisas que nem eu e nem Charlie tivemos chance de experimentar. Phillip é do tipo que se espelha em alguém, e quando se espelha, faz tudo para impressionar esta pessoa. Adivinhem quem ele espelhou? Pois é, eu.
Está com a ideia de entrar nas Forças Armadas porque quer ser um soldado como eu. Mas eu não quero que Phillip passe o que eu estou passando agora.
Nem Charlie, como irmão mais velho, gostaria de passar.
É que na TV eles mostram apenas a ação, as armas atirando, uma fumacinha de leve, e os soldados gritando vitória, com a bandeira erguida sobre a cabeça. Mas eles não mostram a guerra de verdade. Não mostram gente morrendo, gente que não volta para os pais, para a esposa, para os filhos. Não mostram a destruição da cidade, as pessoas tendo que evacuar casas em que vivem há mais de uma década. Não mostram crianças escondidas debaixo da cama, abraçadas com o Bicho-Papão porque até ele se assustou com a guerra.
E por que fazem isso? É simples: eles querem que doemos nossas vidas a uma historinha de ficção científica com falso final feliz. E se eles nos contarem os bastidores, não vamos mais sair da coxia. Vamos querer esconder nossos corpos detrás das cortinas para disfarçar nossa presença. Para fingir que não estamos ali.
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A TV é injusta. A mídia é injusta. O Poder é injusto.
Afinal, quando temos contas a pagar, temos que trabalhar sofridamente para sustentar uma casa, uma família, eles não lembram da gente. Só lembram quando querem manter o sorriso no rosto e corpo totalmente inteiro, e nos põem na guerra. Pra quê? Ainda não sei.
Acho que o prazer deles não é a música, o sexo, o amor, a paixão, a diversão...
Acho que é simplesmente eliminar um por um os "lixos" da sociedade.
Mas eles estão eliminando o lixo errado.
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